Aberio Christe - Seja Autêntico

17/01/2012

A Poeira e a Cadeira

A Poeira e a Cadeira

- Quem é você? – Perguntou a cadeira.

- Eu não sou nada não – respondeu a poeira.

- Se você não é nada, por que está em cima de mim?

- Não se preocupe, logo vem alguém, dá um tapa em você e eu voo para outro lugar.

- Você não tem medo de espanadores?

- Temer por que? Se alguém me bate eu saio, mas logo volto. Sou persistente.

- E qual é a sua função afinal? Eu, por minha vez, dou descanso e ajudo a trabalhar muita gente. Agora você...

- Pode me menosprezar, eu não me importo, mas eles ainda poderão descartar você quando estiver velhinha. Vão lhe deixar abandonada em um depósito qualquer. Quando isso acontecer, quem estará lhe fazendo companhia? Eu.

- Você é muito negativa! Não me admira que seja apenas uma poeira.

- Mas eu não fui sempre assim. Eu era outra coisa. Uma árvore, um objeto de luxo, um jardim florido, um produto importante ou, até um ser humano. Você também vai se transformar, um dia, em poeira.

- Como você é pessimista!

- “És pó e ao pó voltarás”.  Nunca leu isso?

- Claro. Já servi a um estudioso e, por isso, conheço bem a Bíblia.

- Então.

- Não sei por que perco meu tempo conversando com uma poeira?

- Talvez porque tenha muito que aprender comigo?

- Você é bastante pretensiosa também!

- Os sábios buscam conhecer todas as coisas e, de repente, olham para mim e descobrem algo mais importante.

- O que?

- O conhecimento também é pó.

- Ah não! O conhecimento permanece para sempre.

- Como o pó, o conhecimento é o princípio e o fim de tudo.

- Não quero mais conversar com você. Eu me orgulho em ser uma cadeira. Um trono para os reis, um pedestal para os artistas, um apoio para nobres, um instrumento para os intelectuais. Fico feliz por estar nas refeições das famílias bem estruturadas, no escritório dos chefes e dos funcionários exemplares, na sala da reunião onde se tomam decisões importantes, nos restaurantes onde se degustam pratos finos e caros.

- Em todos esses lugares eu estarei também, porque enquanto as pessoas fazem qualquer coisa eu estou presente compondo a história.

- Que história? Você merece ser sacudido, espanado, aspirado, varrido de todos os lugares.

- Pode ser, mas não me poderão varrer do mundo e nem esquecer de que onde houver algum movimento, a poeira se levantará e mais tarde a poeira baixará. Assim é o mundo e pra sempre será.

- Para uma poeira até que você fala bonito, mas eu não estou achando muito produtiva esta nossa conversa . Vamos encerrá-la por aqui. Ah, e lá vem a minha dona. Eu e ela vamos fazer alguma coisa interessante juntos. Uma boa leitura, um crochê... Você vai ter que sair. Fuuu (sopra).

- Pode trazer aqui a minha poltrona – ordena a mulher – coloque-a no lugar dessa cadeira.

- E onde colocaremos a cadeira, senhora? – Pergunta o empregado.

- Eu enjoei dela, leve-a para o depósito, mais tarde daremos um fim nela.

 

Aberio Christe         


Escrito por Aberio Christe às 21h49
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16/01/2012

Tocar o Céu

 

Tocar o Céu

 

Eu quis tocar o céu

Por isso subi, subi com o vento

Na aerodinâmica de um corpo ao léu.

 

Vi os demônios, os anjos e os santos

Batendo asas, orando, pregando.

Despertavam a fé quando entoavam seus cantos.

 

Vi o diabo disfarçado, Miguel sem espada.

Vi o São Enganação, um será sem fim,

Um deus ilusão, um ancião na escada.

 

Muito eu via enquanto a mão estendia.

Pretendia tatear o tal paraíso eterno,

Aquele mesmo sobre o qual eu lera um dia.

 

Nisso, alguém ordenava à minha volta:

“Abaixe a mão, não prossiga, não tente,

“Submeta-se, resigne-se, não gere revolta”.

 

Mas perguntei porque devia parar

Se tinha no peito grande anseio,

Porque não me mexer se lá em baixo agita o mar.

 

Aprendi na selva que é necessário o movimento,

Pois tanto a presa quanto o predador

Assim sobrevivem e conseguem seu alimento.

 

Questionei o dogma, violei a disciplina

“Não pense, não fale, não voe”.

Feri a tradição, mudei minha sina,

 

Pensei, falei, desliguei a turbina e planei,

Logos os dardos da correção foram lançados.

Fui atingido, mas nem por isso me calei.

 

Pensei aterrissar, considerei a desistência,

Porém lembrei que a vida é presença

E não se faz uma história com ausência.

 

Resolvi religar o motor da coragem,

Ergui o bico e recolhi o trem de pouso.

Lá vou eu em busca de nova paisagem.

 

Ainda hei de alcançar a eternidade,

Mas por hora me contento em seguir,

Pois sei que a busca é a própria felicidade.

 

Já não leio manual de doutrinação,

Já não creio em almanaque canônico,

Mas contribuo para o livro ter continuação.

 

Aberio Christe

 


Escrito por Aberio Christe às 15h20
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12/01/2012

"Transformamos Galinhas em Águias"

“Transformamos Galinhas em Águias”

 

Gájia viu a placa e não teve dúvidas, entrou e foi falando em alta voz: - Quero ser uma. O que devo fazer? – Rato a media de cima em baixo enquanto ia respondendo: - Alguns testes. Se aprovada, faremos de você uma maravilhosa, magnífica, esplendorosa, estonteante, desconcertante, “glamourosa”, célebre e famosa ave de rapina.

- Então posso fazer os testes? - Perguntou Gájia, bastante empolgada –, mas já vou adiantando que não sei voar e, também, não enxergo muito bem.

- Fique parada – ordenou Rato mexendo-se rapidamente articulando as mandíbulas. – Raposa, venha aqui.

- Temos uma candidata! – Observou a Raposa enquanto adentrava ao local. Ela mirou Gájia por um certo ângulo, por outro em seguida e por um terceiro. Passava os olhos como se estivesse digitalizando a imagem da galinha (como fazem as mulheres ao observarem as outras). Depois disso, fez-se um profundo silêncio até Rato fazer “qrham”. Raposa olhou feio para ele, que levantou a pata direita como um pedido de desculpas. Seguiu-se mais um instante de silêncio até que enfim: - Você será uma águia – sentenciou ela.

Gájia soltou vários cacarecos e bateu as asas de alegria. – Quando começarão as minhas aulas? Em quanto tempo estarei voando bem alto e enxergando longe?

Rato balançou a cabeça e Raposa fez “thz thz thz”.

- O que foi? – Preocupou-se Gájia.

- Deixe de ser boba –, disse Rato – usaremos os métodos do marketing e da exposição acentuada.

- E o que eu tenho que fazer? – perguntou Gájia, realmente interessada.

- Assinar aqui – disse Raposa mostrando-lhe uma folha de papel. Gájia achou estranho, mas não questionou, pois nunca tinha acompanhado um processo de transformar galinha em águia. Autenticou o documento. Sua assinatura tinha o formato de um pé de galinha. Raposa conferiu, sorriu e ordenou: – Rato, comece a tirar as fotos.

Terminada essa seção de cliques e “flashs”, Gájia voltou para o galinheiro e, enquanto descansava no seu poleiro, pensava que logo seria uma nova ave e nem imaginava que no dia seguinte veria sua foto em outdoors com a frase de efeito: “Gájia, a Nova Águia das Paradas”.

Logo começou a distribuir autógrafos, fazer comerciais e apresentações em casas de shows. Rato e Raposa enchiam os bolsos de dinheiro (se é que eles usavam roupas). Gájia já precisava fugir dos paparazzi, do assédio dos fãs e administrar a fama, que significa: “mostrar-se águia e continuar ciscando”. Mas ela, coitada, acreditou mesmo que tinha sido transformada, até que tentou voar e tomou um baita tombo.

Aberio Christe            


Escrito por Aberio Christe às 21h25
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27/11/2011

Não Sou Bonzinho

 

Não Sou Bonzinho

Descobri que eu não sou bonzinho, pois quiseram me comprar e eu não me vendi. Tentaram me roubar, mas eu não deixei. Disseram que só consegue algo, nesta vida, quem é falso e sabe bajular as autoridades. Não fiz uma coisa nem outra.

Avisaram-me que para ser bem quisto era preciso dizer o que a maioria dizia, mesmo sabendo que ela não estava com a razão. Contrariei esse aviso, disse o que eu acreditava.

Orientaram-me que se quisesse privilégios deveria ficar quieto e não me sobressair em nada, pois odeiam quem se destaca mais do que eles. Conclusão: eles me odeiam.

Mandaram-me ficar calado, mas eu não obedeci. Ordenaram-me virar estátua, mas eu me mexi.

Pediram-me para não ver as coisas erradas, mas eu abri os olhos. Disseram: “seja bonzinho e deixe-se manipular, seja bonzinho e lhe daremos tudo. Seja bonzinho e usaremos você conforme a nossa vontade. Seja bonzinho e nos entregue a sua liberdade. Seja bonzinho e não precisará fazer esforço, não necessitará usar a criatividade e nem a memória. Não lhe farão falta a sabedoria e nem a inteligência. Seja bonzinho e não precisará ser autêntico e, muito menos, sincero. Seja bonzinho e nos entregue a sua liberdade”.

Eu respondi: “Muito obrigado, prefiro fazer a minha história, prefiro deixar acesa a luz que Deus acendeu em mim”.

 

Aberio Christe

 


Escrito por Aberio Christe às 20h30
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12/09/2011

Como Folha de Papel Amassada

Como Folha de Papel Amassada

Quantas vezes durmo não para descansar, mas com a esperança de sonhar com uma vida diferente. Quantas vezes choro sem derrubar uma gota de lágrima sequer. Quantas vezes sinto que o meu coração é uma bomba que está prestes a explodir. O mundo parece mesmo um tabuleiro de xadrez que está sendo jogado em todo planeta, como disse Lewis Carroll através da personagem Alice, mas eu já sofri um xeque mate faz tempo. Eu percebo a solidão e a tristeza à minha volta e penso que estou vendo, como em um espelho, a imagem da minha própria angústia. Eu procuro um sentido para a vida, uma motivação para a existência. Ocupo-me de várias coisas, aumento minhas atividades, diminuo o tempo de ociosidade, invento qualquer coisa para fazer. Porém o desespero aumenta porque isso tudo faz menos sentido ainda. Vem na mente um pensamento estranho, real não sei: “será que a vida me prepara para a morte?” É como se ela alertasse: “desapegue-se de mim porque daqui a pouco teremos de nos separar”. Eu me calo, não falo nada, não partilho essas ideias doentias porque há uma obrigação de ser otimista, de estar o tempo todo de bem com a vida. E eu mesmo concordo com isso. O sentimento ruim atrapalha as relações, prejudica a saúde, diminui meu rendimento profissional e bloqueia meu aprendizado. Eu assopro essas nuvens escuras dos meus pensamentos. Tento remover essas pedras da aflição, tento arrancar essas ervas danosas que brotam no jardim que, dizem, deve ser apenas para cultivar rosas sem espinhos. Entretanto o jardim está repleto de larvas e insetos, os beija-flores foram engaiolados, as borboletas espetadas no album de um colecionador, as flores arrancadas estão murchas em um vaso ou arranjo qualquer. Quando eu era criança sentia algo terrível dentro de mim e via um pedaço de papel ou de pano todo amassado. Hoje não tenho a mesma imagem, mas o sentimento reaparece. Minha vida foi amassada, minhas certezas foram trituradas, meus sonhos foram marretados. Quanto mais tenho que falar de esperança, mais o medo se apodera de mim, quanto mais tenho que incentivar a fé nos outros, mais a dúvida se multiplica na minha cabeça. Quanto mais tento aumentar a confiança dos meus amigos, mais eu desacredito de mim mesmo. Quanto mais eu anuncio cura e saúde aos meus irmãos, mais adoece a minha alma. E é nessas horas que nenhum remédio faz efeito, nenhuma balada traz solução, nem o trabalho substitui o mal estar. Então simplesmente faço uma oração e digo: “Senhor, me ajuda”. Ou não digo absolutamente nada e me entrego somente. Não pense que minha fé é bastante, que minha devoção é madura. Coloco-me diante de Deus como uma cepa seca, como um tubérculo podre. Somente o criador pode consertar a sua criatura. Somente Deus pode recolocar um sopro de vida dentro de mim. E assim sigo a jornada, agradecendo e louvando ao Pai.

Aberio Christe


Escrito por Aberio Christe às 00h02
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14/08/2011

http://youtu.be/1gUiIl8G1dg


Escrito por Aberio Christe às 13h57
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03/08/2011

15 Dicas para Você se Dar Bem na Vida

 


1 – Não se limite a fazer críticas, teça elogios ao que é bom e dê a sua contribuição quando tiver oportunidade.

2 – Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem com você. 

3 – Não condene as pessoas, pois todos nós podemos errar.

4 – Não guarde rancor de ninguém, pois se fizer isso estará prejudicando a si mesmo.

5 – Não se feche em si mesmo e nem no seu grupo, abra-se a possibilidade de novos contatos.

6 – Não pense que você pode viver sozinho, ninguém é auto-suficiente.

7 – Não tire a esperança de ninguém. Se puder incentive, mas nunca destrua a fé das pessoas.

8 – Não espalhe informações confidenciais. Se souber alguma coisa íntima de alguém, guarde pra você.

9 – Não economize sorriso, aperto de mão e simpatia. Essas coisas você pode gastar à vontade.

10 – Não desvie o olhar quando conversar com outra pessoa. Olhar nos olhos é importante.

11 – Não espere algo fantástico acontecer para você comemorar. Você pode se alegrar com as coisas simples da vida.

12 – Não meça a sua importância pelo que você tem (bens, cargos), você simplesmente é importante.

13 – Não espere as oportunidades baterem à sua porta, corra atrás delas ou crie-as você mesmo.

14 – Não aceite fazer o papel de pedra no sapato dos outros. O seu valor nem se compara ao de uma pedra.

15 – Não se acomode com aquilo que já sabe, lembre-se que você tem capacidade de aprender sempre mais.

Aberio Christe

 


Escrito por Aberio Christe às 15h52
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19/07/2011

A Salada Está se Mexendo

Lembre-se, se a sua salada está se mexendo provavelmente não é o agrião que criou perninhas.

Tinha um fio de cabelo no meu prato, reclamei, o garçom retrucou dizendo que era meu. Aceitei que ele podia ter razão, mas depois eu fiquei pensando: eu não tenho cabelos longos e loiros.

Eu tenho uma sorte para encontrar coisas estranhas no prato! É incrível! Parece que alguém do restaurante me vê e diz: “lá vem ele, pega a mosca, a larva, a lagartixa, a pedra... coloca na comida dele”.

Quando eu estive no amazonas, as mariposas praticavam salto e mergulho na minha sopa. Eu só tinha duas escolhas: tirá-las e tomar a sopa ou comê-las com a sopa.    

Uma vez o garçom perguntou o que eu queria beber e eu respondi: “um suco”. Ele perguntou: “de que?” Respondi: “Pode ser de maracujá.” Ele disse: “não tem”.” Abacaxi então”. “Também não tem.” “Morango”. “Acabou”. Perguntei: “mas afinal o que é que tem?” Ele respondeu: “Só de laranja”.

Observei que uma colega de trabalho só levava batata cozida na marmita. Vários dias era o mesmo e único alimento. Então lhe perguntei: “Por que você só come batata cozida?” Ela respondeu: “porque acabou o óleo para fritar”.

Certa vez fui com um amigo a um restaurante que servia comida ao som de música ao vivo.  Meu amigo passou os olhos no cardápio, chamou o garçom e perguntou: “Esse couvert artístico vem o que? Frango, carne, peixe?”     

 Eu não estava comendo nenhum tipo de carne, mas fui a um restaurante alemão e pedi ao garçom para me trazer o prato mais vegetariano que tivesse. Veio uma cabeça de leitão com algumas batatas em volta.

Quem me ensinou a multiplicar foi a minha querida mãe. Ela transformava um ovo em sete omeletes. Com uma maçã, ela alimentava onze filhos. Com um quilo de carne ela fazia uma panelona de almôndegas. 

Uma vez eu saí do trabalho morrendo de fome. No ônibus o meu estômago roncava mais que o barulho do motor. O meu umbigo já estava nas minhas costas. Eu tinha medo de desmaiar de tanta fraqueza. Então comecei a comer um frango assado imaginário. Eu mordia, mastigava, engolia e até chupava os ossos. Impressionante! A fome passou. Minha barriga se encheu de imaginação.    

Uma vez eu subi no pé de goiaba que havia lá em casa e comi que chega. Quando estava todo satisfeito, minha irmã gritou lá de baixo: “joga uma pra mim”. Imediatamente fiz o que ela pediu. Ela abriu a fruta e fez cara de nojo: “credo, tá cheia de bicho”. E eu fiquei o resto do dia sentindo os bichinhos se mexendo dentro de mim.

Certa vez eu comprei um pacote de biscoitos pra mim e um saco de ração para os meus cachorros, mas os biscoitos eram tão ruins que eu tive de jogá-los fora. Conclusão: para não ficar com fome: partilhei da comida dos meus amigos cães. Fazia tempo que não comia com tanto gosto. 

Cuidemos sempre da nossa alimentação e agradeçamos a Deus pelo alimento que recebemos de suas mãos.

 Aberio Christe

 

 


Escrito por Aberio Christe às 18h05
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12/07/2011

Comentários Desagradáveis, Respostas à Altura

Comentários Desagradáveis, Respostas à Altura

Eu tomei uma decisão importante na vida: não vou deixar ninguém roubar a minha auto estima. Se alguém fizer um comentário desagradável leva de troco uma resposta à altura. Mas é claro que vou fazer isto com muito bom humor, porque também este ninguém vai tirar de mim.

A seguir eu cito alguns exemplos. Uma pessoa olha pra mim e diz: “Ave! Os seus cabelos estão brancos!” Eu respondo: “É que eu voltei do Alaska e estava nevando por lá”. Ou então: “Ih, você está ficando careca!” Eu falo: “Não, é que desmatei o couro cabeludo para construir um pensamento positivo na cabeça.”

“Puxa! Como você está gordo!” Eu digo: “Graças aqueles almoços que você tem me servido na sua casa”. Ou: “Nossa! Como você emagreceu!” Eu respondo: “Não, são os seus olhos que engordaram!”

Alguém comenta: “Você está ficando velho!” Respondo: “Não é a terra que está girando rápido demais”.

E não aceito mais as comparações ridículas que podem ferir o amor próprio de qualquer um. Exemplos: Alguém me sugere: “Você devia fazer como Paulo faz.” E a minha resposta é imediata: “E você devia fazer como José, ficar calado”. Ou então: “O senhor é parecido com fulano!” E eu respondo: “Não, fulano é parecido comigo, eu nasci primeiro”.

Também tenho a resposta para aqueles que me chegam com uma conversa assim: “Não quero me meter na sua vida, mas...” E eu corto logo dizendo: “Que bom que você não quer, pois eu detesto que se metam na minha vida.”

Outro me diz: “Eu gostaria de lhe contar uma coisa, mas é segredo.” Respondo: “Se é segredo não me conte senão deixa de ser segredo.”

As conversas desses tipos não edificam e nem fazem crescer os laços entre as pessoas, ao contrário prestam somente para tirar a paz e a alegria do coração. Então o melhor a fazer é encerrar o assunto logo no seu início.  

  

 


Escrito por Aberio Christe às 14h04
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05/07/2011

Rebobinando a Fita

Rebobinando a Fita

Gente, vamos lembrar o passado outra vez. Vamos novamente rebobinar a fita.

Rebobinar a fita! Quando eu disse isso perto do meu sobrinho outro dia, ele me olhou como eu estivesse falando outra língua, talvez falando em línguas. Como ele podia entender o que é isso?  E quando eu falei que antigamente usava cotonete umidecido no alcool para limpar a fita cassete ele pensou que eu havia endoidado de vez. Depois de lhe explicar os porquês eu cometi outro lapso quando lhe perguntei se finalmente “tinha caído a ficha”. Então ele disse: “chega, vamos conversar em português”.

E foi aí que rememorei as vezes que eu andava pelas ruas procurando um orelhão que funcionasse. E quando era domingo então e não encontrava um lugar aberto para comprar fichas. A gente nem sonhava com cartão. Telefone em casa? Irri. Celular, agente não via nem em “Perdidos no Espaço”, “Jornada nas Estrelas”. Se precisasse se comunicar com alguém tinha que ligar para o orelhão comunitário e contar com a generosidade de quem atendesse. “Cê conhece o Dinho? Leva um recado pra ele. Abriu uma vaga para Ofice Boy e ele tem que fazer entrevista amanhã se quiser”.

Trabalhar de ofice boy era interessante porque você não tinha um chefe. Todo mundo mandava em você. Era legal porque não tinha essas formalidades de “por favor”; “você Pode?”. Os colegas, desde o auxiliar de escritório ao presidente lhe escalavam pra fazer alguma coisa: “Boy, vai no banco pra mim”. “Boy, vai comprar um lanche pra mim”. “Boy, você paga essa conta pra mim”. Mas o interessante é que não tinha esses escrúpulos de hoje. Todo mundo “buylingava” todo mundo. Quando você era novato na empresa logo lhe mandavam ao almoxarifado buscar folha de carbono pautada, caderno de brochura com arame, estêncil em pó. É claro que o meu sobrinho nem imagina o que sejam essas coisas. E todo mundo recebia apelido. Cabecinha, Dumbo, Pinóquio, Ximbica, Pancada, Tanaka, Bola Murcha... Mas ninguém ficava chateado com ninguém.

No final de semana agente se divertia em bailinhos nas casas. E agente curtia o som do Johnny Rivers: “Do You Wanna Dance”. Difícil era acertar com a parceira se faria dois passinhos ou um só para cada lado. Agente nunca sabia qual era o mais correto. Os braços deviam ficar na cintura ou nos ombros? E essa menina tá sozinha mesmo ou o namorado dela é aquele grandão ali?

Mas o pior é que eu via o meu colega batendo o maior papo e eu não sabia o que falar. Certa vez arrisquei começar uma conversa.  Perguntai o nome, ela respondeu... A conversa parou  por aí.

Eu podia convidá-la para tomar uma tubaína. Podia convidá-la para ir ao parque no domingo andar de chapéu mexicano, jogar tomba-latas, comer algodão doce. (Algodão doce o meu sobrinho sabe o que é).

E esses parquinhos de diversão? Mas por hora, eu vou parar por aqui, deixa um pouco de lembrança para outro dia porque eu tenho um presente para viver agora. Presente este que daqui a pouco agente vai assistir no DVD do passado.   

(Aut.: Aberio Christe)


Escrito por Aberio Christe às 21h37
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28/06/2011

 

Não Estou Ficando Velho Não

A gente procura não pensar que está envelhecendo, mas não tem jeito. Quando vê os jovens curtindo Lady Gaga e você ainda nem conseguiu engolir a irreverência de Madonna. Quando estão dançando com a Beyoncé e você ainda está tentando aprender os passos do Sidney Magal. Ouve o programa do Altieres Barbiero e consegue cantar junto com todas as músicas que ele toca.

Evita falar a sua idade até mesmo para não criar um abismo entre você e a outra geração, mas quando alguém fala de novela você se empolga: Boa mesmo foi “Roque Santeiro”.

Meu Deus! Eu ainda me lembro de ter assistido TV preto e branco e lembro que se vendiam aqueles plásticos coloridos para se colocar na frente da telinha e ter a ilusão de ver televisão colorida.

E aquela técnica de bater com a colher na válvula do aparelho para a imagem voltar. Que coisa! Eu ainda tenho saudades do Nacional Kid e do monstrinho Guzula que comia ferro. Que é isso?

Quando o assunto é cinema você se lembra dos seus filmes favoritos: “Noviça Rebelde”, “E o Vento Levou”, “Doutor Jivago”, “King Kong”.

Agente se recorda que tem um assunto para resolver, uma conversa para terminar e se dá conta que já se passaram dez anos.

Você vai em uma festa e acha estranho que ninguém dança junto mais. O pior é você sentir sede e pedir uma Grapete para o garçom.

Não estou ficando velho, é que um ano parece um mês pra mim, um mês parece uma semana, uma semana parece um dia. Tá tudo acelerado. Eu penso em fazer alguma coisa diferente para me sentir mais jovem. Sei lá. Ir a uma discoteca, dançar lambada, comprar um CD do Roling Stones, do Christian e Ralf... O que? Não existe mais discoteca ninguém mais dança lambada, os rolings Stones já estão chegando aos setenta anos, Christian e Ralf não são mais a moderna música sertaneja? CD é coisa do passado, dá para baixar as músicas na internet? E o que eu faço com os meus discos de vinil e com as minhas fitas cassetes? E eu que estava pensando em comprar um três em um novo.

Chega! Eu juro que não vou sentir saudade do carrinho de rolemam, do passa anel, do cor flor ou fruta. A brincadeira do “Vamos todos passear na floresta, enquanto seu lobo não vem. Tá pronto seu lobo?”E o “Somos todos marinheiros da Europa pa pa...” E “Passa passa três vezes, a última que ficar...”

Não, tenho que ser moderno: vou ligar o meu Note Book, meu Ipod, meu Ipad antes que se tornem coisas do passado também.

 

Aberio Christe

 

         


Escrito por Aberio Christe às 21h09
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09/06/2011

A Moça e o Vento

Era uma vez uma moça que amava o vento,

Não ligava para o sol, para chuva ou para a lua,

E se encantava somente com o ar em movimento,

Estivesse em casa, no campo, na praia ou na rua.

 

Ansiava encontrar seu desejado amado,

Sem o qual chorava as noites na solidão,

Pedindo que o dia trouxesse de volta seu namorado,

Pois sem ele preferia que padecesse seu coração.

 

Que não pudesse ver o rosto do seu querido,

Não se importava a nobre alma,

Porque o amor que não se vê é melhor sentido,

Tranquiliza a mente e ao espírito traz a calma.

 

Às vezes vendaval, às vezes brisa assoviante,

Chegava impondo a sua mais bela canção,

Trazendo ares de lugares distantes,

Anunciando a chegada de uma nova estação.       

 

Tufão ou tornado se faria aquele vento?

Com nada disso se importava a donzela,

Pois a paixão aumentava a cada momento

Por aquele que seria o melhor esposo para ela.

 

Assim suspirava e sonhava a futura noiva,

Preparando a festa das bodas de casamento,

Desfazendo-se de lembranças e de qualquer coisa

Que pudesse prender sua vida ao antigo tempo.

 

 Não demorou porém para cessar a ventania,

Recuperando o ar a sua cotidiana bonança

E o coração da moça se encheu de agonia,

Pois, foi-se o amado levando nuvens e esperanças.

 

Esta é uma história igual a de muita gente

Que confunde o passageiro com o eterno,

Sufocando a razão, ludibriando a própria mente

E se esquecendo que após o outono vem o inverno.

Aut.: Aberio Christe 


Escrito por Aberio Christe às 22h35
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27/05/2011

Renivaldo, O Patinho Feio

(Baseado em fatos reais)

Renivaldo sempre sofreu “bullying”. Dizem que antes de nascer já tinha que aguentar as piadinhas do tipo: “você vai nascer uma barata” ou “se a sua mãe for esperta ela lhe aborta logo no começo da gravidez”. Quando ele nasceu, a mãe perguntou à enfermeira: - “É um menino?” e ela respondeu: “Acho que é, pelo menos tem biluzinho”. E ele não recebeu do médico um tapinha no bum-bum, mas um tabefe na cara.

Ainda na maternidade uma enfermeira perguntou para a outra: “Quantos bebês você contou?” e a resposta: “Seis, mais aquela coisa ali”. Quando os parentes viram a criança pela primeira vez, alguém disse: “É a cara do pai”, mas este ficou bravo e retrucou: “Não é mesmo”.

E assim o Renivaldo viveu a sua infância e adolescência. Na escola, todos os dias ele ganhava um apelido novo, um tapa, um soco, um ponta-pé. Os colegas, os professores, inspetores apenas assistiam às cenas e não faziam nada. Certa vez ele revidou um soco na barriga e acertou o nariz do provocador. O melado escorreu do outro e Renivaldo foi levado à diretoria. Tomou uma bronca: “Você é um menino bagunceiro e violento, vai ficar suspenso para aprender”. E ficou de castigo em casa sem poder assistir televisão, nem pegar os seus brinquedos. Mas estava feliz, pois longe da escola ele quase tinha paz, não fossem os seus pais dizendo a todo instante: ”Vagabundo inútil! Vai ser o que quando crescer? Filhote de não sei o que com qualquer coisa?”.

Mas ele teve que voltar àquele inferno chamado escola e as torturas continuavam. Agora ele tinha fama na escola inteira. Pessoas de outras salas olhavam pra ele e diziam: “Cuidado que ele é louco”. E escondiam o seu material, roubavam o seu lanche, rabiscavam os seus cadernos... E as agressões físicas voltaram.

Renivaldo pensava: “se eu tivesse um fuzil... Ratatatá, tatá, tatá”. Mas a perseguição a ele tendia a aumentar. Faziam desenhos de caveiras, de sapos na lousa e colocavam o nome dele. Certa vez escreveram: “Renivaldo é uma mistura de Serra com Ronaldinho Gaúcho”. E outra vez: “Quem disse que não existe ET, olha o Renivaldo aí”. Quando ele pegava o apagador levava sopapos de vários lados.

Mas ele se cansou de ser o saco de pancadas da turma e foi fazer um curso de artes marciais com o objetivo de se vigar de todos os seus algozes. Porém nesse curso aprendeu coisa melhor que vingança. Aprendeu a ter alto estima e considerar aqueles agressores como os verdadeiros infelizes.

Renivaldo seguiu adiante e se tornou um profissional respeitado da área de exportação. É um homem elegante, charmoso e querido pelas mulheres. Às vezes ele têm notícia de alguns dos seus perseguidores na escola quando abre a página policial do seu jornal.  

Aut. Aberio Christe


Escrito por Aberio Christe às 18h53
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A Menina Miudinha

(Baseado no conto “Mindinha” de Hans Christian Andersen)

 

Era uma vez uma mulher que se sentia muito sozinha, ela era uma boa pessoa, mas não tinha facilidade para fazer amigos, as pessoas se afastavam dela. Desde o tempo de escola, era isolada e não tinha amigos. Ninguém se aproximava dela, nem os professores lhe davam muita atenção, pois eles estavam muito ocupados em ensinar. Essa mulher não se casara, porém tinha um sonho: ser mãe. Certo final de tarde, foi surpreendida com batidas na porta da sua humilde casa e ela correu para saber quem era na esperança de que fosse alguém para lhe fazer companhia.

- Olá generosa senhora, teria algo para uma pobre velha matar a fome?

- Sim - respondeu com simpatia – acabei de fazer uma sopa gostosa, entre e partilhe comigo essa refeição.

Elas se alimentaram e ficaram até altas horas conversando, brincando e rindo juntas. Então a mendiga se levantou e disse: - Preciso ir embora. Muito obrigada pela sua generosidade. Gostaria de retribuir esse carinho de alguma maneira. A senhora tem algum sonho?

- Sim – respondeu a mulher com brilho nos olhos – gostaria de ter uma criança que me fizesse companhia.

A mendiga mexeu no bolso do seu velho casaco, tirou algo dele e estendeu para a bondosa senhora.

- Tome, é uma semente mágica, plante-a e logo verá o seu sonho realizado – e se foi pela noite a fora. A mulher olhou aquela semente e mesmo sem entender bem as palavras da velha, colocou-a em um vaso com terra, depois pegou seu paninho e se pôs a bordar. No entanto ela não deixava de olhar frequentemente para o vasinho. Assim, caiu no sono, ali mesmo sentada na cadeira. Mas ainda no meio da noite acordou e qual não foi sua surpresa a se deparar com uma linda tulipa.

- Ela tinha razão – disse maravilhada – a semente é mágica. – E de repente a flor se abriu e dentro dela havia uma criaturinha.

- Que linda menininha, mas é tão miudinha!

A criança espreguiçou-se e perguntou: - Você é a minha mãe?

- Sim, sou a sua mãe e vou amá-la e protegê-la para sempre.

Aquela pequena garotinha logo sofreria com a crueldade do mundo. Tudo e todos eram tão grandes perto dela. E ela foi matriculada em uma escola, mas as outras meninas a desprezavam, não a escolhiam para fazer parte dos grupos de estudo. Afinal a sua letra era muito pequena. Os meninos diziam debochando: - Você não é de verdade, é apenas uma boneca.

Uma vez colocaram a miudinha em cima do armário e ela não conseguia descer, gritava, mas ninguém a ouvia ou fingia não ouvir. Uma vez, um garoto malvado a colocou no bolso durante o intervalo e ela não pode comer o seu lanche. O menino só a soltou quando acabou o recreio.

A minúscula menina às vezes era pisoteada porque todos queriam correr quando dava o sinal para irem embora, ninguém respeitava o seu tamanho.

Quando chegava em casa, ela chorava no colo da mãe e a boa senhora sentia a dor no coração por não poder cumprir a promessa de proteger a sua querida menininha. Então essa mãe orou aos céus e algo aconteceu.

A menininha estava na escola e vários colegas zombavam dela. Diziam: - pintora de rodapé, jóquei de pulga, tampinha, piolho, Topo Giglio, formiga, poeira de sótão, semente de gente, filhote de cruz credo, miniatura do cão –, entre outros termos. E todos aplaudiam como zombaria. De repente ela começou a crescer, a crescer e ficou gigantesca. Então colocou todos que zombavam dela nas mãos e ameaçou: - Acho que vou aplaudir vocês agora.

Eles ficaram com muito medo de serem esmagados ou caírem no chão, pois estavam no alto e começaram a pedir perdão e prometer que nunca mais fariam mal a ninguém, nem ofenderiam os colegas. A menininha voltou ao seu tamanho de antes, tornou-se adulta, casou-se com um príncipe e se tornou a menor mulher mais querida do universo.       

Aut. Aberio Christe 


Escrito por Aberio Christe às 18h34
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23/02/2011

Isquito, o Fogo e o Ladrão – Parte II

 

Lardno, carregando o vasilhame com óleo, chegou até o vilarejo dos Difentes. Os membros do grupo local estranharam a ausência de Isquito, mas não tiveram muito tempo para especular. Lardno, ao ver o fogo, ficou pasmo. Tocou na chama, mas logo sentiu sua mão queimar e recuou. Disse ansioso: “Quero pra mim, dêem-me isso agora”.

Bobno lhe respondeu: “Calma, você precisa primeiro conhecer a história do fogo”. Chatno pediu que o visitante o acompanhasse. Estno falou baixinho, lembrando os companheiros que esse que trazia-lhes o óleo era um bandido. Bobno ponderou: “Pelo momento, ele é nosso amigo, pois está nos ajudando, seja qual for a sua intenção”.

Dentro da cabana, Chatno falava a Lardno dos benefícios e malefícios que o fogo pode trazer. Ensinou, ao visitante, como transformar alimentos duros e não muito saborosos em deliciosas comidas, mas também contou dos incêndios destrutivos que já ocorreram no mundo. Lardno prestava muita atenção em tudo que dizia seu interlocutor, depois teve a oportunidade de provar pratos assados e cozidos. Por fim, o ladrão do caminho recebeu a sua tocha e as instruções para frequentemente alimentar a chama com óleo. Lardno estava radiante de felicidade.

Enquanto o gatuno se afastava, Estno perguntou: “Será que ele vai usar bem esse fogo?”. Chatno respondeu: “É quase certo que não, mas não podemos detê-lo. Ele recebeu de Deus a liberdade de escolha. Poderá tirar bom proveito desse fogo ou se queimar.”

Isquito chegou no dia seguinte, ele mancava um pouco por causa do ferimento na perna. Olhou para o fogo aceso e demonstrou uma certa tristeza. Bobno lhe perguntou o que sentia. O pequeno lhe contou: “Fiquei sabendo que Lardno, em um vilarejo não muito distante daqui, ameaçou atear fogo nas casas, se os moradores não lhe entregassem as suas riquezas. Eles reagiram, o ladrão feriu alguns com a tocha, uma cabana se incendiou, Lardno caiu no fogo e ficou bastante queimado. Mesmo ferido, ele fugiu, porém não tem mais o fogo em seu poder”.

Bobno observou: “E você está se sentindo culpado por isso, pois afinal convenceu o ladrão a nos trazer o óleo prometendo-lhe uma tocha.”

Isquito concordou e acrescentou: “Não seria melhor que o fogo tivesse se apagado e ninguém sofrido nenhum dano?” Bobno balançou a cabeça: “Meu pequeno amigo, as pessoas continuarão a fazer coisas erradas pelo mundo, isso independe de nós. Lardno recebeu o fogo e as informações, mas ele fez a sua escolha: usou mal o seu poder e o seu conhecimento. O fogo não pode se apagar para que pessoas não se queimem, as pessoas precisam respeitar a natureza e tê-la como verdadeira amiga e aliada. E mesmo que apague o fogo exterior, as maldades continuarão, pois o fogo dentro de cada um continuará aceso. É preciso usar bem a chama que está dentro de nós.”

 

 

Aberio Christe       

               


Escrito por Aberio Christe às 11h12
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